Quinta-feira, Janeiro 05, 2006

Noutro tempo...

Existem pessoas que não são desse tempo. São aqueles velhos senhores de bengala e paletó (e neles, o paletó faz sentido, não é um incômodo empoeirado) que não se vêem mais. Os poucos que sobraram, não se encaixam... Moram sozinhos, amigos enterrados, e ninguém mais os suporta... ou entende. São aquelas pessoas de classe que hoje em dia se vêem mais em filmes, aqueles que liam mais livros em um mês do que nós em um ano, aqueles que discutiam por noites e noites as teorias de Kant e o estilo de Flaubert, e o faziam com gosto, sem falsidade ou artificialidade.
São homens de um tempo que já foi, são os homens de um tempo onde era verdadeira a expressão "uma causa maior", onde o sacrifício era um meio de vida.
Eram aqueles enrugados e pequenos donos de livraria que conversavam com você, e você tentava desesperadamente dar às costas a eles, são os senhores que se vê em bares, mais a procura de coompanhia do que de álcool, são os velhos tristonhos à procura daquilo que, pelo que dizem os vestígios, nunca existiu.
E, cada vez menos eles existem, vão se esvaindo, apagando, indo embora, e o passado se vai com eles, um passado nebuloso de chapéus-coco e atos de genuína bondade, um passado de filmes em preto e branco e Dostoievski no dia a dia, cada vez mais longe, indo, indo, indo, à beira do esquecimento, uma bolha de sabão prestes a explodir...

Kain - Manchild - Eels



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