Segunda-feira, Janeiro 02, 2006

Estória Qualquer

A mulher anda, não, apague isso. A mulher corre para fora da estação de metrô como o diabo da cruz, velocidade estonteante, desviando-se parcialmente de alguns e trombando em outros, o salto alto raspando o chão lentamente conspirando sua queda.
Vem de um emprego qualquer para um homem desonesto - e rico - qualquer, que ganha honestamente sua vida roubando dos outros que mal tem o que ser roubado, e vem em marcha apressada pois o bebê que veio na hora errada espera por ela em casa, espera impaciente, afinal, a vizinha teve de sair mais cedo e o rebento está sozinho, e a corrida é cada vez mais apressada, instinto de mãe, algo não vai bem.
Irrompe casa adentro e o cheiro de gás lhe inunda as narinas, corre, procura, tudo o que tem direito, e lá está o bebê, inerte, imóvel, morto, sem esperança, sem nada.
Sem choro nem lágrimas, ela se deita ao lado da criança e a abraça, forte.
Desiste de lutar como quem abaixa o garfo ao prato porque está sem fome, desiste de se reerguer mais uma vez, "Deixe a fênix para outrem", desiste de lutar para nada, e o nada é tudo naquele momento.
Deita-se ao lado e espera, respira apressadamente, acaricia e beija a morte, mas, não, não à misericórdia, pois a vizinha, não a que estava cuidando, uma outra, sentiu o cheiro de gás e - milagre dos milagres - a polícia chegou lá.
E encontra a mulher quase morta e a criança morta, e a mulher vai - primeira vez - para a cadeia por infanticídio.
Lá, código de leis por código de honra, o respeito não existe e a humanidade é um sonho distante, tempo passa, ela sai, tira a vida da vizinha para logo em seguida saltar do décimo andar, afinal, é mais garantido.
E então descansa.

Kain - o bêbado e a equilibrista



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