Senritumalização
- Senritumalização! - disse Fernanda, já exasperada. Como podiam não entender?!- Fê, você tá legal?
- Porra! Vocês não entendem? A senritumalização vai acontecer! Tudo... Ah... Vão se foder!
Fernanda sempre fora uma pessoa comum, cheia das esquisitas comunzices que é normal encontrar nas pessoas dentro do padrão: notas médias, roupas sem nada de especial, gostos iguais aos dos outros, enfim, nada que valha à pena comentar.
Especialmente por isso foi difícil engolir quando ela enlouqueceu.
Na verdade, em primeira instância, poucos admitiram, ou sequer mencionaram a palavra "loucura". Só diziam que ela "precisava de um tempo", que "estava cansada".
Foi quando todos seus balbucios tremidos se resumiam à Senritumalização que foi necessário deixar de lado as ilusões e as adiações ao inevitável: Fernanda era realmente maluca.
Diante disso, seus pais tomaram a decisão mais compreensível: colocaram-na em um hospício e esqueceram-na.
O tempo se passou e, como comprovaram serem mestres nisso, as pessoas que com Fernanda conviviam deixaram-na para trás. Ora, de que importa uma louca qualquer quando nós todos temos uma vida pela frente?
Não tinham. Algum tempo, algo entre quatro ou cinco anos, depois de Fernanda sair da vida de todos, ela voltou.
As notícias demoravam a chegar naquela cidade esquecida por Deus, portanto, ninguém nem se dera conta de que o local onde ela havia sido internada estranhamente sumira: sem vestígios, sem fogo, sem pessoas.
Fernanda voltou à casa de seus pais, desgrenhada e perdida, para dizer uma só palavra:
- Senritumalização.
Ouviram se gritos na casa deles, e, posteriormente, na maior parte das casas da cidade. No final, não havia mais gritos.
Ninguém nunca entendeu como uma cidadezinha inteira pode morrer.
PS: esse conto escreveu-se sozinho.
